Rito de Passagem
Ruy Cezar do Espírito Santo
Muito se tem falado a respeito do “Rito de Passagem”... A passagem da adolescência para a maturidade... É um ritual, que não só está presente na vida do ser humano individual, como já esteve bem presente na vida da humanidade, como um todo. Como abordei em meu último livro, “O Autoconhecimento na Formação do Educador”, considero o ano de 1.945 como sendo o “marco” decisivo no “rito de passagem” da humanidade.
Sim, foi o ano em que o adolescente humano depois de chegar às culminâncias egóicas de si mesmo, com a presença massiva dos grandes ditadores, quis “dominar” o planeta. Assim tivemos: Hitler, Stalin, Mussolini, Salazar, Franco e ainda os “menores” como Getúlio, Perón, Fidel, Pinochet e assim vai... Pois bem, com a eclosão contemporânea de tantos ditadores ficou registrado, que o adolescente humano poderia “destruir” o planeta com a “bomba atômica”... Exatamente no ano de 1.945...
Pois bem, para caracterizar mais profundamente o ano de 1.945 é também neste ano que “surgem” inesperadamente, no Egito, no deserto de Nag Hamadi, documentos de 2.000 anos atrás e que traziam uma incrível mensagem, significante de um rito de passagem! Sim, tais documentos revelavam que a humanidade havia “crescido” o suficiente e que o momento, era de superar uma postura de “crenças”, para passar ao “saber”...
É incrível a seqüência dos acontecimentos, apontando, então, para o início da maturidade do ser humano. Surgem, (e estão surgindo...) então, aos poucos, uma consciência ecológica, uma abertura para a formação de Organizações Não Governamentais, em que seres humanos, não mais por “ordem” de qualquer ditador, mas porque querem, irão atuar em campos de acolhimento do próximo ou em ações de cuidados com a natureza...
Isso que se passou (e passa...) com a humanidade deve acontecer com cada jovem em seu rito de passagem... O jovem precisa entender a profundidade e a beleza do momento que está vivendo e perceber que o mesmo ocorre com a humanidade, como um todo... Cada um deles poderá construir ou destruir o seu entorno a partir de um verdadeiro “querer” a ser despertado. Esse despertar, na verdade, é a inserção consciente no mistério da liberdade presente à vida humana.
Cabe nesse momento à educação assumir com profundidade essa “missão” junto a seus jovens, acolhendo-os em seu especial “momento”. Há necessidade das escolas ampliarem o contato professor-aluno permitindo, que durante mais de um ano seja mantido o contato de um mesmo educador numa sala de aula, como já o faz a Pedagogia Waldorf, quando um docente acompanha uma turma, da primeira a oitava série...
Pode ser inviável isso em nossas escolas públicas, porem há que se avançar nessa direção, na medida do possível!
Lembremos-nos que foi naquele mesmo momento pós-1.945 que surgiu na educação um Paulo Freire “anunciando” o conscientizar antes de alfabetizar, medida essa com profunda relação, com o rito de passagem aqui tratado. È também nesse mesmo momento que se retoma outra mensagem de mais de dois mil anos: o conhece-te a ti mesmo como principio de toda a sabedoria... É uma retomada da mensagem de Sócrates.
Pouco antes de 1.945, outro profeta, Teilhard de Chardin, anuncia a chegada do ponto ômega, quando a humanidade após percorrer o longo caminha da análise chegava a luminosa síntese: era o momento da conscencialização...
Concluindo essa breve reflexão quero deixar claro que não considero o “rito de passagem” da humanidade como significando a “chegada” há uma situação de “maturidade” definitiva... Ao contrário acredito que tenha sido o início dessa maturidade. Aliás, o jovem após o rito de passagem tem também um longo Caminhar para atingir sua maturidade plena... Seguramente vivemos e viveremos ainda inúmeros sinais de restos de adolescência não resolvida, mas, também avanços significativos da maturidade iniciada...
Junto dois textos poéticos, já publicados em livros que escrevi e que se ajustam a reflexão acima.
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