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INTRODUÇÃO

Algo nos difere de todos os outros seres de nosso ambiente, ninguém duvida. As neurociências estudam essas diferenças, procuram entender como se processa a cognição, a vida. Entre outras, uma conclusão ressalta unânime nessa resposta: o desenvolvimento ocorre pela Aprendizagem.

Aprendizagem, então, é o foco dos interesses de todos que buscam progresso, qualidade de vida. Aprendizagem é foco de Neurociências. Aprendizagem é o tema deste livro, que procura trazer os avanços científicos, os trabalhos mais recentes em Aprendizagem, nas diversas áreas do saber. A supremacia entre as espécies nos deixa a responsabilidade de cuidar de nosso planeta e de nosso grupo.

Aprendizagem, em nosso milênio, não pode se reduzir à dinâmica de um indivíduo num ambiente isolado, em que se focalizem dificuldades ou facilidades específicas. Aprendizagem, hoje, precisa refletir um aprofundamento mais abrangente, considerando as interações múltiplas, a integração globalizada, que superam as concepções propostas nas visões anteriores do aprender formal e informal. Diferentes fatores sociopsicobiológicos, econômicos e culturais se agrupam em rede produzindo uma percepção do indivíduo e seu ambiente, sua cultura, sua história, em relações recíprocas. Aprender é reconstruir o saber de cada dia.

O novo enfoque precisa reconhecer, numa visão integrada, as diferentes formas do homem pensar, sentir, viver as diversidades culturais e as influencias que recebe de seus grupos. Esses fatores também se influenciam entre si [1], e nos exigem pesquisas que ampliem a competência no enfrentamento dos novos desafios, num ecossistema [2] em que estão imersos os indivíduos, com interações recíprocas que se promovem entre os microssistemas, que circundam um sujeito e sua família, portanto, aqueles que se relacionam face a face, e o macrossistema, mais geral, que envolve valores culturais, políticos, legais, religiosos, econômicos, educacionais, que nos atinge em rede. Os conflitos humanos se ampliam ao questionamento ecossistêmico, onde a complexidade humana se rende ao conhecimento, que se faz pela aprendizagem. A aprendizagem é o caminho do desenvolvimento, da adaptação, da capacidade de vencer limitações, da inclusão.

Aprendizagem centraliza nosso objetivo nesse livro. Pretendemos discutir a Educação em suas interfaces com a Saúde e com temas voltados para o desenvolvimento e a adaptação na relação sócio-cultural, o que prevê a interdisciplinaridade dos estudos de pesquisadores e especialistas. O efetivo aprendizado pode ser melhorado a partir da integração multidisciplinar nas discussões, que não reduzem o aluno aos muros de sua sala de aula, nem modifiquem critérios ou expectativas para aparentar sucesso. O aprendizado se relaciona com as ações que integram família, escola e comunidade e ocorrem quando promovem no indivíduo suas habilidades e o reconhecem como cidadão. Cada um de nós nasce com habilidades particulares, com diversidades infinitas, e todos podem, e devem, de acordo com expectativas legais, contribuir na sociedade com o desenvolvimento de competências, que serão também a realização pessoal que se faz com aprendizagem. As áreas de conhecimento se complementam como num quebracabeças que dá sentido a pequenas peças, ao libertá-las da fragmentação que as isolam de um contexto real, dificultando a solução na vida prática. A participação cidadã prevê um sistema que inclui desejos e sonhos, onde diferenças se abraçam e celebram a diversidade, com a preocupação em reunir ideais na construção de um mundo.

As crianças brasileiras estão marginalizadas no contexto mundial de aprendizagem. Somos, por repetidos anos, os últimos colocados no OECD (Organization for Economic Cooperation and Development), que evidenciam falhas na aprendizagem de nossos alunos na leitura, escrita e solução de problemas.Sem essas habilidades não sobrevivem perspectivas de cidadania ou realização pessoal desses indivíduos na sociedade.

Nosso maior capital são os recursos humanos, que precisam ser bem cuidados. É preciso investir no material humano efetivamente, para alcançar o progresso desejado. É com esse objetivo que este livro reúne estudos que buscam promover as pessoas, através de sua educação e saúde. Este livro se propõe a articular conclusões sobre as condições necessárias para fazer surgir um novo panorama na educação. São pesquisadores que vêm trabalhando nesse tema, abrindo clareiras nessa selva de problemas sobre aprendizagem, fracasso escolar e inclusão social de pessoas. São assuntos que precisam ir das discussões para a prática e esse livro pretende colaborar com apoio efetivo aos trabalhos voltado para essa finalidade, nas universidades, nas clínicas, nas instituições políticas públicas ou privadas, nas escolas, nas famílias.

Nas discussões, temos nos reunido anualmente e nos orientado em direção a mudanças e trazemos em nossa história a elaboração de um manifesto pela educação, assinado por milhares de pessoas, que foi encaminhado ao governo, onde nossos sonhos ganharam vida nas palavras de Pfromm Neto [3]: “Está na hora de juntar nossas forças e nossos esforços de pais, sacerdotes, educadores, psicólogos, médicos, fonoaudiólogos, assistentes sociais, nutricionistas e outros profissionais, para por fim às intrujices psicopedagógicas, aos simulacros, às desídias, às procrastinações, à lassidão na formação e na escolarização das crianças, especialmente no que respeita ao ensino público. Está na hora de despertar o país para o drama da criança que tem dificuldade para aprender e requer cuidados específicos – e componentes. Está na hora de investir generosamente em bom ensino, bons professores, boa pesquisa científica de natureza empírica em relação à infância e adolescência brasileiras. Está na hora de agir de fato, na linha que mencionamos inicialmente, da tolerância zero em relação a tudo quanto possa afetar adversamente a educação das nossas crianças”. A conclamação emocionada acima, é dirigida ao mesmo público que buscamos nesse livro, aqueles que estão envolvidos nas mudanças que a aprendizagem pode oferecer e que buscamos atingir.

No momento, ainda estamos longe de alcançar nossos ideais de educadores, pais ou profissionais de neurociências. Cerca de 2,1 milhões de crianças na faixa etária de 7 a 14 anos ainda não sabem ler e escrever, conforme dados oficiais publicados pelo Ministério de Educação. Discutir sobre a aprendizagem, trazer novas pesquisas e recursos é a parte que nos cabe, esperando atingir nossas autoridades, um dia.

Na primeira parte do livro, separado em quatro temas, abordamos questões básicas e iniciais de Desenvolvimento e Aprendizagem: A prematuridade e suas possíveis implicações para o desenvolvimento; O bom desenvolvimento das crianças de educação infantil (de 0 a 5 anos) e as implicações em suas aprendizagens futuras; Desenvolvimento infantil e aprendizagem: MAIS Alfabetização; Avaliação Dinâmica da Compreensão em Leitura; e Sono e Aprendizagem: implicações do sono nas dificuldades de aprender.

Na parte seguinte do livro, a preocupação se volta para a criança com transtornos de aprendizagem. São distúrbios neuropsicológicos, descritos internacionalmente, e freqüentemente desconhecidos nas escolas e famílias, que não sabem da necessidade de atendimento interdisciplinar e de procedimentos que não se limitam ao ambiente escolar, mas envolvem até a comunidade. Em geral, a criança permanece longo tempo sofrendo pela responsabilidade de transtornos que são acentuados pelo descaso com seu problema, ainda que, inadvertidamente. Em geral, somente quando o fracasso escolar se consolida e a criança, normalmente, inteligente, se marginaliza em atitudes antissociais, surgem algumas tentativas isoladas de solução e caça às “bruxas”, numa busca de culpados que se alternam entre acusações de falhas na escola e em casa. Os temas desse bloco são: Transtornos de aprendizagem; Transtorno Não Verbal de Aprendizagem: aspectos neuropsicológicos; Distúrbio de Aprendizagem Não-Verbal; Aspectos cognitivo-linguísticos e sua relação com os transtornos da aprendizagem; Dislexia; Discalculia do desenvolvimento e cognição matemática: aspectos neuropsicológicos; Discalculia ou Transtorno específico das habilidades matemáticas; Cognição espacial: considerações teóricas acerca da Neuropsicologia; Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade; Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e o Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação Motora: das similaridades e diferenças à necessidade de uma abordagem clínica integrada; Amusia congênita ou do desenvolvimento.

A terceira parte do livro trata da criança com necessidades especiais. Reconhecemos que muito esforço vem sendo feito, como o lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), em 2007, que procurou promover mudanças especialmente em 1.242 municípios prioritários, que se distribuem por todas as regiões, com maior predominância nas regiões Nordeste e Norte, e passou a acompanhar de perto os resultados com elaboração de tabelas por níveis de ensino, por municípios e escolas. Entretanto, apesar dos trabalhos voltados para atender aos alunos que não acompanham as expectativas dos currículos educacionais, sabemos que ainda falta muito para alcançarmos as metas propostas, ou seja, existem trabalhos dignos de aplausos, mas estamos muito longe de atingir sequer as metas primárias de prevenção, quem dirá se buscarmos as questões de prevenções secundárias e terciárias, que nos levaria aos direitos preconizados por nossa legislação. Essas afirmações encontram sustentação nos números que nos foram fornecidos pelo MEC, através do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep - 2008), no interesse em colaborar para que pudéssemos informar a situação oficial da Educação Especial, apontada pelas pesquisas estatísticas, reconhecidamente, um ganho essencial em Educação, porque norteia trabalhos a serem desenvolvidos.

São questões complexas e profundas, que precisam ser analisadas com sensibilidade, questionando o comportamento das pessoas nas atitudes de exclusão, incoerentes com a natureza humana, que se caracteriza pela diversidade. Ainda, é o conhecimento o melhor argumento contra preconceitos. Os temas do livro relacionados com as necessidades especiais são: Educação Especial e Inclusão; Autismo; A criança surda: perspectivas psicológicas e educacionais na atualidade; A Avaliação de Inteligência de Crianças Surdas; Aprendizagem e Deficiência visual; Uso do brinquedo em atendimento fisioterapêutico da criança com paralisia cerebral; Deficiência intelectual; Alta Capacidade, Dotação e Talento.

O caminho oposto à exclusão de pessoas em sua oportunidade de se realizar socialmente é atendimento aos problemas apontados por pesquisas científicas. A Neuropsicologia é uma especialidade que se caracteriza por relacionar diversos profissionais nos estudos da cognição. A Neuropsicologia, em conjunto com estudos psicopedagógicos, permite atuar na intervenção em sala de aula, possibilitando a prevenção, o atendimento, a reabilitação e a inclusão escolar, auxiliando na orientação da família e da sociedade diante dos distúrbios ou déficits de aprendizagem.

A interdisciplinaridade é um instrumento essencial para promover a atuação conjunta de diversos campos do saber, especialmente nas áreas da saúde e educação, que dependem de conhecimentos integrados na busca de soluções para as falhas observadas nos resultados educacionais, especialmente no desempenho das crianças brasileiras. Promover reflexão que propicie a interação de conhecimentos, idéias e experiências atuais nessas áreas do saber, é indispensável na busca de novas estratégias para o aprimoramento dos profissionais da Saúde e Educação em prol de melhores condições para a vida humana.

A última parte do livro busca trazer alguns recursos práticos de atuação. Não aborda todas as possibilidades terapêuticas, que são inúmeras na Psicologia, Pedagogia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Terapia ocupacional ou outras áreas de atuação porque envolveria especialistas dessas áreas especificamente e nosso trabalho se dirige à interdisciplinaridade. Os assuntos são: O psicopedagogo na mediação sujeito-escola- família; Resolução de conflitos em sala de aula: contribuições para o debate; Oficinas Lúdicas nas Escolas Municipais do Rio de Janeiro; Equoterapia como recurso facilitador nos transtornos da aprendizagem escolar – uma abordagem psicomotora

Enfim, este não é mais um livro sobre aprendizagem. É um esforço conjunto no enfrentamento dos desafios da formação escolar de crianças, que interessa a profissionais das áreas de Educação e Saúde no esclarecimento a professores, a familiares e a interessados nas mudanças que precisam transpor a base dos problemas para terem resultados mais efetivos.

A formação e a valorização profissional é o trajeto eficaz para percorrer com sucesso o caminho da Educação para todos e a formação de professores. Ampliar o diálogo, tirar dúvidas presentes da Educação Básica, contribuir com os esforços educativos é a intenção e o dever de todos nós.

Acredita-se que há muito a pesquisar para que se configurem as transformações que buscamos na Educação, atendendo as necessidades em aprendizagem, como base para o surgimento de novas estratégias. Todo ser humano tem capacidades, que buscam por oportunidades. É a conduta que norteia este livro que garimpa por um espaço mais digno para nossos jovens em nossa sociedade. Reunidos, podemos muito, por isso contamos com você!

Boa leitura!

Luiza Elena L. Ribeiro do Valle

Francisco Assumpção Jr.

Rubens Wajnsztejn

Leandro Fernandes Malloy-Diniz


[1] Mariotti, H. Organizações de aprendizagem. São Paulo: Atlas, 1999.
Morin, E. Método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulinas, 2000.

[2] Bronfenbrenner, u. A eoclogia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Trad. Veronese. Porto Alegre: Artes médicas, 1966.

[3] Pfromm Neto, S. Crianças que não aprendem, escolas que não ensinam: mais ciência, consciência, cooperação efetiva – agora. In: Neuropsicologia e Aprendizagem, Valle, Luiza Elena L. Ribeiro e Capovilla, Fernando César. São Paulo: Tecmedd Editora, 2004.