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Como anda a nossa relação com a educação.

Álvaro Dantas*


O envolvimento dos pais na escola é fundamental para a boa aprendizagem. Mas, venho per­cebendo uma divergência pro­gressiva entre a formação peda­gógica oferecida pela escola e os valores familiares. Estes são às vezes muito rígidos. Outras vezes coniventes com ações “anti-so­ciais”. Ou seja, os valores dessas instituições estão – quase sempre – em choque. Mas a situação se agrava quando os valores, dentro da própria família, se conflitam.

Os valores dos pais variam, ainda que façam eles parte de um mesmo senso comum. O ideal é que eles cheguem a um acordo, com espaço para o respeito mú­tuo entre os valores paternos e maternos. E, quando da escolha da escola, que a opção leve em conta os valores que a família compartilha. Um bom caminho é discutir o conceito a fim de se encontrar a melhor forma de aproximação desses dois univer­sos, uma vez que entre eles se en­contra o principal: a criança.

Segundo Piaget, por valor se define o caráter afetivo do obje­to. Um conjunto de sentimentos projetados que constitui uma re­lação entre objeto e sujeito, mas uma relação que é sempre afeti­va. Como diz Yves de La Taille, a escola inevitavelmente lida com valores: alunos têm valores, professores têm valores, a insti­tuição escola pressupõe valores... A questão, seguindo La Taille, é: sobre quais valores a escola vai trabalhar e como. Eu perguntaria: são esses os valores que os pais desejam que sejam trabalhados com seus filhos? E, se não, há o respeito pelos valores de um e de outro sistema de relação?

Com muita freqüência rece­bemos na escola pais insatisfeitos com alguma medida educativa, com reclamações em relação a um cuidado específico que eles gostariam que seus filhos tives­sem. Em geral, essa colocação diz respeito à singularidade ou a especificidade de seus filhos, não conseguindo percebê-los no gru­po. A escola trabalha o grupo e deve estar atenta a singularidade da criança. Contudo, sendo uma instituição responsável pela inser­ção do sujeito no âmbito social, a escola tem como premissa o esta­belecimento de valores morais de convivência do sujeito no campo relacional. A formação social, além da transmissão de conheci­mentos, está entre os objetivos da escola e essa se faz a partir de in­serções da noção de fundamentos morais e éticos.

Ao falarmos dos valores mo­rais, referimo-nos àqueles que norteiam a convivência nas insti­tuições, mas que podem divergir em seu conteúdo, como acontece às vezes entre escola e família. Entendemos que se faz necessá­rio optar e, portanto, ter ciência de quais são os valores que nor­teiam o universo da escola esco­lhida para os filhos. Caberá, por conseguinte, a escola proporcio­nar ações educativas, curriculares ou relacionais que estimulem o respeito aos direitos do próximo e favoreçam a aprendizagem dos deveres necessários a uma boa convivência. Ações essas que de­vem estar estabelecidas no proje­to político pedagógico e precisam ser estudadas pelos professores. Cabe aos pais ter ciência desse projeto e respeitarem as medidas escolares, sabendo que essas têm valor educativo-social. A escola, por sua vez, deve estar atenta à dinâmica familiar e respeitá-la, na medida em que não interfira negativamente no coletivo.

O fato é que a criança res­ponde melhor quando não pre­cisa “decidir” a quem respeitar. Quando há uma divergência de valores há também uma disputa de poder: o valor “melhor”. Se isso acontece, a criança entra em conflito, gerado pela imposição da escolha. Na relação entre es­cola e família, o mais comum é que ela tome o partido da última, comprometendo a credibilidade da instituição de ensino, prejudi­cando a relação com diretores e professores.

Quando isso acontece, as reações são variadas: problemas com alimentação; rejeição em ir para as aulas; e, no limite, gestos de violência e afronta à figura do educador. Não é incomum que falas e atitudes tornem-se ainda mais agressivas, normalmente com respaldo familiar. O que se percebe é que uma parcela dos pais, no ímpeto de defender seus filhos, acaba por corroborar ati­tudes anti-sociais.

Isso explica porque o chama­do bullying (brincadeiras agres­sivas) está em “moda”. Se isso não é uma conseqüência direta da educação familiar, há que se entender ao menos que a sensa­ção de “impunidade” e de “apoio incondicional”, que parece tomar o lugar do “amor incondicional”, fomenta ou facilita tais ações.

Na realidade atual, onde mui­tas famílias se desfazem, vêem-se casos até mais graves, dentro do contexto educacional, em que pais separados pedem que se omitam informações ao outro, convidan­do a instituição a compactuar com situações onde a moral perde valor em função da ética singular das partes. Esquece-se que a es­cola é parceira da família e que todos, inclusive pai e mãe, preci­sam manter uma relação cordial em benefício dos filhos. A velha história de que quem se separa são o homem e a mulher, mas que o pai e mãe continuam com seus potenciais lugares, deve valer também para a escola. A institui­ção não deve tomar partido. Esse não é o papel da escola, que mui­tas vezes é o único local em que a criança se sente preservada de tanta fragmentação.

É cada vez mais necessário aproximar família e escola. Fun­damental se faz que sejam faladas línguas semelhantes para que as trocas não sejam paralisadas. O afeto que une e a crença que sus­tenta o respeito dessas duas ins­tâncias sociais é o que garantirá a melhor aprendizagem pedagógi­ca e social de nossas crianças.

* Terapeuta e psicomotricista.